PRÓDIGO
O ônibus parou, a porta foi aberta. Gersino desceu e tocou aquele solo novamente, após quase duas décadas. Hesitou por um instante e observou o ônibus desaparecer na curva da estrada, em meio a uma nuvem de poeira.
Gersino olhou para um lado e para o outro e acompanhou com o olhar os contornos da estrada que daria à casa dos pais. Por um momento sentiu como se nunca saíra dali e, a sensação da presença dos pais e dos irmãos trouxe à sua memória recordações de sua infância, adolescência e até mesmo fatos que lembravam o dia que dali partira.
Abriu a mochila e tirou um chapéu amassado e os óculos escuros. Ajeitou a mochila nas costas e começou a caminhar. Não adiantaria andar rápido, era longe e se cansaria. Haveria de andar bastante até chegar à sua casa, pensou.
A estrada era estreita, margeada pela lavoura de café que dava uma impressão sombria, escondendo alguma surpresa pelos becos afora.
Gersino andava e observava o verniz do sapato sendo colorido pelo amarelo da poeira. A cada passo, aumentavam-lhe as lembranças de sua vida pregressa.
Na primeira curva, parou sobre a ponte de tábuas e observou por instantes o leito do rio. No espelho d’água se formavam imagens das árvores e das nuvens que se movimentavam lentamente. Gersino não pôde deixar de esboçar um sorriso ao lembrar-se do dia em que o pai fora chamado às pressas para socorrer um meeiro que havia caído naquele rio. Também pudera, andava sempre embriagado e a estreita ponte não oferecia proteção alguma. Após a queda brusca e inesperada, o meeiro jurou não beber, mas o fato caiu no esquecimento e ele reapareceu embriagado.
Gersino continuou a andar e logo à frente parou novamente, em frente à cruz do falecido Antônio Coita. Gersino observou aquele pedaço de madeira envolvido em papel de seda, uma lata enferrujada servia de castiçal e algumas flores secas ainda permaneciam ali, ao pé da cruz. Contavam que Antônio Coita fora assassinado pelo próprio genro, ao negar a divisão das terras enquanto vivo. Que o fizessem após a sua morte, alegou. E para dar um impulso à sorte, o genro assassinou o sogro e foi gozar de sua herança longe dali, numa cela de cadeia.
Gersino andou mais um bom trecho e deparou com a encruzilhada que levava à casa do padrinho de Lourenço, seu irmão mais velho. O compadre Hamilton era muito querido do pai e a consideração que tinham um pelo outro era grande. Lourenço ganhou um padrinho cem por cento, como sempre dizia o pai.
Um barulho chamou a atenção do caminhante após andar outro trecho. Sorriu. Era a bica onde costumavam beber água sempre que passavam por ali. A água escorria e alguém teve o zelo de colocar uma bica de ambaíba e cavar um poço para que os animais também a bebessem. Gersino aproximou-se e viu seu rosto refletido no espelho d’água, ora fixo, ora trêmulo. Jogou a mochila num canto, abaixou-se, tirou o chapéu e os óculos escuros. Molhou as mãos, os braços e o rosto. Fez concha com a palma das mãos e bebeu, outra vez, aquela água.
Ficou observando-a cair, ouvindo o barulho que fazia ao escorrer por entre as pedras e gravetos. Lembrou-se do dia que voltavam da missa e, ao pararem ali para beber água, ele empurrou Catarina, sua irmã, que caiu na poça de lama, sujando a roupa nova que usava pela primeira vez. Sorriu ao lembrar, também, da surra que levara ao ser apanhado por Lourenço, que o trouxe à presença da mãe para dar-lhe um corretivo.
Gersino pegou a mochila, pôs novamente os óculos e o chapéu e recomeçou a caminhada. Já andara bastante. A lavoura havia ficado para trás e o sol já não castigava tanto. O pasto, de um lado e outro, a estrada margeada por uma cerca de arame farpado e algumas árvores. Tudo parecia como havia deixado há quase vinte anos, quando saiu da casa dos pais para viver na cidade, fazer a própria vida. Quanta ilusão!
Gersino caminha e acompanha com o olhar afoito cada detalhe. Lembrou-se de quando o pai comunicou que a terra que recebera por herança se resumia somente no local onde fora construída a casa onde moravam e que a vida na roça não seria tão próspera quanto antes. Os filhos decidiram escolher o próprio caminho. Lourenço e Catarina se casaram ainda jovens e se mudaram para outra localidade.
Gersino ainda não completara dezessete anos quando receberam uma visita que deu o pontapé na sua decisão de também deixar a vida na roça. Um homem que andava por aquelas bandas tirando retrato e vendendo quinquilharias convenceu-o de que a cidade ofereceria melhores condições de vida e prosperidade e prometeu ajudá-lo.
Ele ficou empolgado com a possibilidade de fazer a vida na cidade e foi embora, conhecendo o que era o mundo. Ficou como prisioneiro daquele homem, que não permitia que ele saísse, privando-o de liberdade, ameaçando-o com uma suposta responsabilidade lhe outorgada pelo seu pai. O homem obrigava-o a realizar serviços para saldar a dívida da viagem e da hospedagem, uma conta que nunca era quitada. Gersino levou tempo para se ver livre e, somente após aquele tempo, ele teve condições de retornar à casa dos pais, aproveitando um momento de distração do seu algoz e escapando pela janela. Nem sabia por onde andavam seus irmãos. Dos pais não teve mais notícias, mas agora estava de volta, disposto a refazer a sua vida e viver junto a eles, o que não teve oportunidade de fazer até àquela data. Jurou para si mesmo nunca mais abandoná-los.
Sonhava com o momento que chegaria à casa dos pais e seria recebido por eles, poder jogar-se aos seus braços, pedir perdão pela ambição e a cobiça e poder sentir o calor, o carinho, a segurança e o amor que somente a casa dos pais proporciona, pensou Gersino.
Seus passos no chão batido eram firmes, decididos e cheios de saudades. Diria à mãe e ao pai o quanto os amava. Como era bom poder voltar!
A certa distância, Gersino avistou a última curva e logo estaria em casa.
Aquela curva também testemunhara muitas das aventuras de Gersino, dos irmãos e dos primos que vinham visitá-los. Lembrou-se de quando vinham encontrar com o avô, que chegava no carro de bois, trazendo a colheita da lavoura. Quando ele voltava, os netos amontoavam-se no carro de bois e iam até àquela curva, voltando aos galopes e gritos, sendo recebidos pela mãe, que os esperava no alpendre. Dali também ela gritava por eles, à hora do almoço ou para tomarem banho. Era uma festa correr o dia todo, sem limite para as brincadeiras.
Bom mesmo era quando os primos apareciam. A casa ficava cheia e não havia uma árvore que ficava livre. Subiam em todas e a barulheira era tamanha que quando eles iam embora, o pai reclamava da imensidão da casa e do silêncio. A casa ficara estava surda, dizia ele.
Gersino passou pela curva e entrou numa reta escura, sombreada por árvores de frondosas copas de um lado e de outro, que impediam que os raios do sol penetrassem. Sentiam medo sempre que passavam ali à noite, quando voltavam da rua, lembrou.
Aquele último trecho que daria à casa dos pais deu mais força ao rapaz, que se pôs a andar mais depressa, a passos largos. Em pouco tempo avistou a casa, ainda distante. Era um casarão não muito grande, antigo, com o reboco soltando em vários pontos e o mato brotando no telhado denunciavam o tempo que não era reformada. As janelas e as portas estavam fechadas. Ninguém no quintal. Nenhuma galinha, cabrito ou outro animal andava pelo terreiro. Apenas um cão latiu, escondido debaixo de uma laranjeira, distante da casa.
Gersino observou o terreiro onde o pai secava o café, amontoava o milho e também eles aprontavam as brincadeiras, correndo de um lado a outro. Parou e veio-lhe à lembrança a casa aberta, um varal no alpendre, cheio de roupas, e eles brincando no terreiro, puxando uma carroça, às gargalhadas.
Ao redor do terreiro, laranjeiras, jabuticabeiras, goiabeiras. Tudo permanecia no mesmo lugar, intacto. Gersino aproximou-se, olhou a casa de frente, circulou e foi para os fundos. Subiu uns degraus de pedra, cobertos de lodo. Ouviu o barulho da água na bica, que continuava a desaguar. Sorriu! Subiu mais um pouco. A porta da cozinha também estava fechada. Foi à bica. Uma bica de bambu levava a água até à porta da cozinha, onde fora colocado o jirau onde as vasilhas eram colocadas para escorrer.
Dentro do caixote de madeira podre, uma panela de ferro e uma colher permaneciam debaixo da bica. A água caía na panela e derramava, desaguando por um rego, se espalhando pelo quintal. Dia e noite, incansavelmente!
Gersino acompanhou com o olhar o curso da água e avistou a corda amarrada num galho da jabuticabeira. A gangorra que o pai fizera, quando ainda eram pequenos, ainda permanecia ali, já apodrecida.
O rapaz retirou os óculos, colocou-os no bolso da camisa, aproximou-se da porta da cozinha. Reconheceu a tira de tecido que a mãe amarrara para puxar a porta quando saíssem. Era um retalho da sobra de um vestido que fizera para Catarina. Tocou levemente o tecido e empurrou a porta, quase adivinhando o que poderia encontrar lá dentro, ou não encontraria nada, nada mais poderia existir ali, pensou.
O silêncio era fúnebre.
Tão logo a porta foi aberta, a cozinha recebeu um facho de luz e Gersino pôde ver a prateleira e os pertences da mãe ainda no mesmo lugar. Algumas panelas na trempe do fogão a lenha, o tições, a peneira e o abano pendurados na parede, um banco de madeira e o tamborete onde dona Adelaide costumava sentar Catarina para lhe pentear os cabelos.
Gersino passou os dedos pela mesa de tábuas e percebeu que há tempo a poeira não era retirada, já estava acumulada.
Ele colocou a mochila sobre a mesa e foi para outro cômodo. O sol entrava pelas frestas do telhado e revela partículas de poeira que giravam no ar.
Ele abre a porta e entra no quarto dos pais. Vai à janela, abre-a e deixa entrar uma brisa leve. Pela janela avistou o forno de barro, construído debaixo da varanda, ao lado da casa, onde a mãe assava broas, biscoitos, leitões e outras iguarias que eles adoravam. Sentia um odor insuportável de sujeira, mofo e poeira. Ele olha a cama, o crucifixo pendurado à cabeceira, a lamparina sobre a cômoda, o guarda-roupa e uma bengala, que o avô usara. Na cama, uma colcha de retalhos e os travesseiros. Uma peça de roupa pendurada em um prego atrás da porta chamou-lhe a atenção. Era a roupa que a mãe usava para dormir. Ali ela pendurava a camisola.
Cada objeto estava vivo em sua memória e seus olhos buscavam cada detalhe, absorvendo tudo o que revia.
Gersino saiu dali e foi para o outro quarto, outro e outro, revendo os móveis e objetos encontrados, abrindo as janelas e deixando que o ar circulasse.
Por último, chegou à sala.
Passou direto e abriu a janela e a porta. Deixou o olhar ganhar o pomar, o pasto e o quintal. Voltou os olhos e sorriu ao ver a foto dos pais pendurada na parede. A mãe sorria. Aquela foto estava bem diferente. A pintura a óleo nunca demonstrava exatamente como as pessoas eram, havia muito exagero, pensou ele.
Gersino olhou a cristaleira com as louças que dona Adelaide guardava para servir às visitas. Agora poderia usá-las, era visita. Sorriu. Servido pela mãe, até numa cuia um mingau vira banquete, pensou.
Os olhos de Gersino se detiveram no assoalho. Uma parte estava diferente, marcada por uma enorme mancha que ele não conhecia. Seus olhos seguiram aquela mancha até encontrarem o banco, onde a mãe sempre costumava deitar.
Com as mãos no rosto, não pôde conter-se. As lágrimas explodiram de seus olhos ao ver a mãe ali deitada. Vestia o vestido de chita que os filhos lhe deram de presente num dia das mães. Estava deitada, na mesma posição, com as fotos dos filhos espalhadas pelo peito.
Os filhos se casaram e foram cuidar da própria vida. O caçula partiu, para também se realizar longe da roça. Os pais ficaram sozinhos, esperando que, de uma hora para outra, um deles retornasse. Inútil espera.
O pai deixa a mãe sozinha, ao partir para atender ao chamado de Deus. A solidão era imensa e os anos foram cruéis com dona Adelaide, não lhe devolvendo os filhos e ainda lhe tomando o marido. Alguns anos de espera foram suficientes para ela sentir o que lhe aconteceria.
Sentira saudades, estava só, queria alguém por perto e as fotos serviram-lhe de consolo. Assim ela partiu para uma vida onde, talvez, a solidão não existisse. Já não percebia nada mais, não ouvia, não via, não chorava nem sentia saudade, nem percebia a presença do filho que ali estava, ao seu lado, para revê-la, poder abraçá-la, disposto a confessar-lhe outra vez o seu amor.
Entretanto, Gersino estava de volta e, após quase duas décadas, ele reencontrou a mãe...
O ônibus parou, a porta foi aberta. Gersino desceu e tocou aquele solo novamente, após quase duas décadas. Hesitou por um instante e observou o ônibus desaparecer na curva da estrada, em meio a uma nuvem de poeira.
Gersino olhou para um lado e para o outro e acompanhou com o olhar os contornos da estrada que daria à casa dos pais. Por um momento sentiu como se nunca saíra dali e, a sensação da presença dos pais e dos irmãos trouxe à sua memória recordações de sua infância, adolescência e até mesmo fatos que lembravam o dia que dali partira.
Abriu a mochila e tirou um chapéu amassado e os óculos escuros. Ajeitou a mochila nas costas e começou a caminhar. Não adiantaria andar rápido, era longe e se cansaria. Haveria de andar bastante até chegar à sua casa, pensou.
A estrada era estreita, margeada pela lavoura de café que dava uma impressão sombria, escondendo alguma surpresa pelos becos afora.
Gersino andava e observava o verniz do sapato sendo colorido pelo amarelo da poeira. A cada passo, aumentavam-lhe as lembranças de sua vida pregressa.
Na primeira curva, parou sobre a ponte de tábuas e observou por instantes o leito do rio. No espelho d’água se formavam imagens das árvores e das nuvens que se movimentavam lentamente. Gersino não pôde deixar de esboçar um sorriso ao lembrar-se do dia em que o pai fora chamado às pressas para socorrer um meeiro que havia caído naquele rio. Também pudera, andava sempre embriagado e a estreita ponte não oferecia proteção alguma. Após a queda brusca e inesperada, o meeiro jurou não beber, mas o fato caiu no esquecimento e ele reapareceu embriagado.
Gersino continuou a andar e logo à frente parou novamente, em frente à cruz do falecido Antônio Coita. Gersino observou aquele pedaço de madeira envolvido em papel de seda, uma lata enferrujada servia de castiçal e algumas flores secas ainda permaneciam ali, ao pé da cruz. Contavam que Antônio Coita fora assassinado pelo próprio genro, ao negar a divisão das terras enquanto vivo. Que o fizessem após a sua morte, alegou. E para dar um impulso à sorte, o genro assassinou o sogro e foi gozar de sua herança longe dali, numa cela de cadeia.
Gersino andou mais um bom trecho e deparou com a encruzilhada que levava à casa do padrinho de Lourenço, seu irmão mais velho. O compadre Hamilton era muito querido do pai e a consideração que tinham um pelo outro era grande. Lourenço ganhou um padrinho cem por cento, como sempre dizia o pai.
Um barulho chamou a atenção do caminhante após andar outro trecho. Sorriu. Era a bica onde costumavam beber água sempre que passavam por ali. A água escorria e alguém teve o zelo de colocar uma bica de ambaíba e cavar um poço para que os animais também a bebessem. Gersino aproximou-se e viu seu rosto refletido no espelho d’água, ora fixo, ora trêmulo. Jogou a mochila num canto, abaixou-se, tirou o chapéu e os óculos escuros. Molhou as mãos, os braços e o rosto. Fez concha com a palma das mãos e bebeu, outra vez, aquela água.
Ficou observando-a cair, ouvindo o barulho que fazia ao escorrer por entre as pedras e gravetos. Lembrou-se do dia que voltavam da missa e, ao pararem ali para beber água, ele empurrou Catarina, sua irmã, que caiu na poça de lama, sujando a roupa nova que usava pela primeira vez. Sorriu ao lembrar, também, da surra que levara ao ser apanhado por Lourenço, que o trouxe à presença da mãe para dar-lhe um corretivo.
Gersino pegou a mochila, pôs novamente os óculos e o chapéu e recomeçou a caminhada. Já andara bastante. A lavoura havia ficado para trás e o sol já não castigava tanto. O pasto, de um lado e outro, a estrada margeada por uma cerca de arame farpado e algumas árvores. Tudo parecia como havia deixado há quase vinte anos, quando saiu da casa dos pais para viver na cidade, fazer a própria vida. Quanta ilusão!
Gersino caminha e acompanha com o olhar afoito cada detalhe. Lembrou-se de quando o pai comunicou que a terra que recebera por herança se resumia somente no local onde fora construída a casa onde moravam e que a vida na roça não seria tão próspera quanto antes. Os filhos decidiram escolher o próprio caminho. Lourenço e Catarina se casaram ainda jovens e se mudaram para outra localidade.
Gersino ainda não completara dezessete anos quando receberam uma visita que deu o pontapé na sua decisão de também deixar a vida na roça. Um homem que andava por aquelas bandas tirando retrato e vendendo quinquilharias convenceu-o de que a cidade ofereceria melhores condições de vida e prosperidade e prometeu ajudá-lo.
Ele ficou empolgado com a possibilidade de fazer a vida na cidade e foi embora, conhecendo o que era o mundo. Ficou como prisioneiro daquele homem, que não permitia que ele saísse, privando-o de liberdade, ameaçando-o com uma suposta responsabilidade lhe outorgada pelo seu pai. O homem obrigava-o a realizar serviços para saldar a dívida da viagem e da hospedagem, uma conta que nunca era quitada. Gersino levou tempo para se ver livre e, somente após aquele tempo, ele teve condições de retornar à casa dos pais, aproveitando um momento de distração do seu algoz e escapando pela janela. Nem sabia por onde andavam seus irmãos. Dos pais não teve mais notícias, mas agora estava de volta, disposto a refazer a sua vida e viver junto a eles, o que não teve oportunidade de fazer até àquela data. Jurou para si mesmo nunca mais abandoná-los.
Sonhava com o momento que chegaria à casa dos pais e seria recebido por eles, poder jogar-se aos seus braços, pedir perdão pela ambição e a cobiça e poder sentir o calor, o carinho, a segurança e o amor que somente a casa dos pais proporciona, pensou Gersino.
Seus passos no chão batido eram firmes, decididos e cheios de saudades. Diria à mãe e ao pai o quanto os amava. Como era bom poder voltar!
A certa distância, Gersino avistou a última curva e logo estaria em casa.
Aquela curva também testemunhara muitas das aventuras de Gersino, dos irmãos e dos primos que vinham visitá-los. Lembrou-se de quando vinham encontrar com o avô, que chegava no carro de bois, trazendo a colheita da lavoura. Quando ele voltava, os netos amontoavam-se no carro de bois e iam até àquela curva, voltando aos galopes e gritos, sendo recebidos pela mãe, que os esperava no alpendre. Dali também ela gritava por eles, à hora do almoço ou para tomarem banho. Era uma festa correr o dia todo, sem limite para as brincadeiras.
Bom mesmo era quando os primos apareciam. A casa ficava cheia e não havia uma árvore que ficava livre. Subiam em todas e a barulheira era tamanha que quando eles iam embora, o pai reclamava da imensidão da casa e do silêncio. A casa ficara estava surda, dizia ele.
Gersino passou pela curva e entrou numa reta escura, sombreada por árvores de frondosas copas de um lado e de outro, que impediam que os raios do sol penetrassem. Sentiam medo sempre que passavam ali à noite, quando voltavam da rua, lembrou.
Aquele último trecho que daria à casa dos pais deu mais força ao rapaz, que se pôs a andar mais depressa, a passos largos. Em pouco tempo avistou a casa, ainda distante. Era um casarão não muito grande, antigo, com o reboco soltando em vários pontos e o mato brotando no telhado denunciavam o tempo que não era reformada. As janelas e as portas estavam fechadas. Ninguém no quintal. Nenhuma galinha, cabrito ou outro animal andava pelo terreiro. Apenas um cão latiu, escondido debaixo de uma laranjeira, distante da casa.
Gersino observou o terreiro onde o pai secava o café, amontoava o milho e também eles aprontavam as brincadeiras, correndo de um lado a outro. Parou e veio-lhe à lembrança a casa aberta, um varal no alpendre, cheio de roupas, e eles brincando no terreiro, puxando uma carroça, às gargalhadas.
Ao redor do terreiro, laranjeiras, jabuticabeiras, goiabeiras. Tudo permanecia no mesmo lugar, intacto. Gersino aproximou-se, olhou a casa de frente, circulou e foi para os fundos. Subiu uns degraus de pedra, cobertos de lodo. Ouviu o barulho da água na bica, que continuava a desaguar. Sorriu! Subiu mais um pouco. A porta da cozinha também estava fechada. Foi à bica. Uma bica de bambu levava a água até à porta da cozinha, onde fora colocado o jirau onde as vasilhas eram colocadas para escorrer.
Dentro do caixote de madeira podre, uma panela de ferro e uma colher permaneciam debaixo da bica. A água caía na panela e derramava, desaguando por um rego, se espalhando pelo quintal. Dia e noite, incansavelmente!
Gersino acompanhou com o olhar o curso da água e avistou a corda amarrada num galho da jabuticabeira. A gangorra que o pai fizera, quando ainda eram pequenos, ainda permanecia ali, já apodrecida.
O rapaz retirou os óculos, colocou-os no bolso da camisa, aproximou-se da porta da cozinha. Reconheceu a tira de tecido que a mãe amarrara para puxar a porta quando saíssem. Era um retalho da sobra de um vestido que fizera para Catarina. Tocou levemente o tecido e empurrou a porta, quase adivinhando o que poderia encontrar lá dentro, ou não encontraria nada, nada mais poderia existir ali, pensou.
O silêncio era fúnebre.
Tão logo a porta foi aberta, a cozinha recebeu um facho de luz e Gersino pôde ver a prateleira e os pertences da mãe ainda no mesmo lugar. Algumas panelas na trempe do fogão a lenha, o tições, a peneira e o abano pendurados na parede, um banco de madeira e o tamborete onde dona Adelaide costumava sentar Catarina para lhe pentear os cabelos.
Gersino passou os dedos pela mesa de tábuas e percebeu que há tempo a poeira não era retirada, já estava acumulada.
Ele colocou a mochila sobre a mesa e foi para outro cômodo. O sol entrava pelas frestas do telhado e revela partículas de poeira que giravam no ar.
Ele abre a porta e entra no quarto dos pais. Vai à janela, abre-a e deixa entrar uma brisa leve. Pela janela avistou o forno de barro, construído debaixo da varanda, ao lado da casa, onde a mãe assava broas, biscoitos, leitões e outras iguarias que eles adoravam. Sentia um odor insuportável de sujeira, mofo e poeira. Ele olha a cama, o crucifixo pendurado à cabeceira, a lamparina sobre a cômoda, o guarda-roupa e uma bengala, que o avô usara. Na cama, uma colcha de retalhos e os travesseiros. Uma peça de roupa pendurada em um prego atrás da porta chamou-lhe a atenção. Era a roupa que a mãe usava para dormir. Ali ela pendurava a camisola.
Cada objeto estava vivo em sua memória e seus olhos buscavam cada detalhe, absorvendo tudo o que revia.
Gersino saiu dali e foi para o outro quarto, outro e outro, revendo os móveis e objetos encontrados, abrindo as janelas e deixando que o ar circulasse.
Por último, chegou à sala.
Passou direto e abriu a janela e a porta. Deixou o olhar ganhar o pomar, o pasto e o quintal. Voltou os olhos e sorriu ao ver a foto dos pais pendurada na parede. A mãe sorria. Aquela foto estava bem diferente. A pintura a óleo nunca demonstrava exatamente como as pessoas eram, havia muito exagero, pensou ele.
Gersino olhou a cristaleira com as louças que dona Adelaide guardava para servir às visitas. Agora poderia usá-las, era visita. Sorriu. Servido pela mãe, até numa cuia um mingau vira banquete, pensou.
Os olhos de Gersino se detiveram no assoalho. Uma parte estava diferente, marcada por uma enorme mancha que ele não conhecia. Seus olhos seguiram aquela mancha até encontrarem o banco, onde a mãe sempre costumava deitar.
Com as mãos no rosto, não pôde conter-se. As lágrimas explodiram de seus olhos ao ver a mãe ali deitada. Vestia o vestido de chita que os filhos lhe deram de presente num dia das mães. Estava deitada, na mesma posição, com as fotos dos filhos espalhadas pelo peito.
Os filhos se casaram e foram cuidar da própria vida. O caçula partiu, para também se realizar longe da roça. Os pais ficaram sozinhos, esperando que, de uma hora para outra, um deles retornasse. Inútil espera.
O pai deixa a mãe sozinha, ao partir para atender ao chamado de Deus. A solidão era imensa e os anos foram cruéis com dona Adelaide, não lhe devolvendo os filhos e ainda lhe tomando o marido. Alguns anos de espera foram suficientes para ela sentir o que lhe aconteceria.
Sentira saudades, estava só, queria alguém por perto e as fotos serviram-lhe de consolo. Assim ela partiu para uma vida onde, talvez, a solidão não existisse. Já não percebia nada mais, não ouvia, não via, não chorava nem sentia saudade, nem percebia a presença do filho que ali estava, ao seu lado, para revê-la, poder abraçá-la, disposto a confessar-lhe outra vez o seu amor.
Entretanto, Gersino estava de volta e, após quase duas décadas, ele reencontrou a mãe...
MOCORONGO
O dia começava cedo. Lá fora ainda estava escuro. No inverno a cerração baixa embaçava a vista e não se via nem o que estava mais próximo. Mas era hora de levantar, o primeiro galo havia cantado há algum tempo e os demais o acompanharam. A lenha queimava no fogão e clareava a cozinha, enquanto na chaleira a água fervia. O coador de pano fora colocado no aro do mancebo pendurado na parede. A mão girava a manivela do moinho e o pó, moído, era colocado no coador. A água tingida escorria e caía no bule, exalando o cheiro do café. Um gole e já era hora de sair.
O almoço ia no pequeno caldeirão, dentro do embornal, junto com a merenda. Abria a porta, olhava para um lado e outro, fechava-a novamente e, com passos firmes e decididos, enfrentava a cerração e aquele ventinho gelado. Era madrugada e no céu ainda havia estrelas. Ninguém era visto na rua, ainda dormiam.
Um assobio estridente cortou a madrugada e quebrou o silêncio. Marchas cívicas se misturavam às melodias que eram executadas pelas ruas silenciosas e desertas. Passos rápidos e sintonizados com o ritmo das marchas assobiadas.
O assobio matutino era a identidade daquele homem e, quando ouviam-no, sabiam que ele passava. O tempo passou e o assobio fora incorporado à rotina da cidade e mesmo quando ele não estava bem, aquele som era esperado. Todos os dias lá vinha ele, assobiando e andando a largos passos, como se tivesse uma pressa infinita.
Mas não era só o assobio peculiar àquele homem. Mocorongo era seu jargão e podia significar qualquer pessoa ou qualquer coisa, concordando com o que ele quisesse alcunhar. Tudo e todos podiam ser um mocorongo, mocoronguinho ou até mesmo um mocorongão. Difícil era saber o que ele queria dizer quando chamava alguém de mocorongo. E foi ele mesmo quem interpretou o apelido:
– Mocorongo, ‘ocê é um bobo! Bobo e feio!
Mocorongo não era ser bobo, nem ser feio, mas aquele homem preferia simplificar tudo, não buscar significados específicos e não se preocupar com o que poderia ou não ser um mocorongo. O feitiço do eufemismo virou contra o feiticeiro e mocorongo passou a ser o seu próprio apelido.
Mocorongo era espalhafatoso, andava pelas ruas falando alto e quando a conversa ficava mais amistosa, ele esfregava o rosto com as mãos e uma gargalhada homérica ressoava. Ao ouvi-la, já sabiam: o Mocorongo estava passando na rua.
Mocorongo não passava despercebido, quando era visto, havia sempre alguma coisa para falar, assunto nunca lhe faltava.
O tempo passou e levou a motivação e encanto do assobio e das gargalhadas do Mocorongo. Ele andava triste, cabisbaixo e já não estava tão alegre como antes. Perdera sua companheira e a solidão lhe interrompeu o repertório. Mocorongo estava em silêncio, quieto, enlutado. A companheira de algumas décadas parece ter levado consigo o assobio e as razões das gargalhadas de Mocorongo.
Aquela ausência arrancou daquele lugar o assobio, as gargalhadas e o próprio Mocorongo, que partiu para uma terra não tão distante e enxertou-se em outros troncos. Fixaria suas raízes em outro lugar, onde pôde, outra vez, assobiar e gargalhar como antes.
O repertório de Mocorongo parecia interminável e, naquele lugar, ele logo começou a marcar sua presença e gravar o som de suas gargalhadas nos ouvidos daquele povo, também alcunhado de mocorongo.
A alegria do assobio e a festa das gargalhadas do Mocorongo agora eram em outro lugar. Para trás ficou a terra que Mocorongo pisou por pouco mais que sete décadas.
O tempo outra vez foi cruel e chegou o dia que Mocorongo viu executado todo o seu repertório, soltou incontáveis gargalhadas e muita gente já havia sentido, com ele, a sua alegria. Mocorongo cumprira sua missão.
Mocorongo, nem é um bobo, nem um feio, apenas era alegre em todas as circunstâncias.
Mocorongo não tinha mais o que fazer e deu por concluída a sua missão. Decidiu apelidar outras gentes, gargalhar com outras platéias, alegrar os moradores de outras terras, brilhar em outros palcos.
Mocorongo não escolheria deixar este lugar, mas, como nunca se esquivou de um compromisso, aceitou o desafio e depois de uma carreira de vida de mais de setenta e um anos, foi assobiar com o vento, para que o mundo todo pudesse ouvir e sentir a força de seus pulmões, que no último minuto fê-lo calar-se para sempre. Seu corpo foi depositado no jazigo, marcado por estacas fincadas ao lado da companheira, no dia em que ela foi naquele chão enterrada.
Já não é mais possível em nenhuma terra ver o Mocorongo passar. Ouvir o eco de seu assobio e suas gargalhadas homéricas não é mais permitido. Corações ficaram tristes e já não podem alegrar-se com ele.
Nas madrugadas não se ouve mais o som daquele assobio nem aquelas gargalhadas. Ficaram as obras de suas mãos, que perpetuar-se-ão na memória de muitos e registradas nas páginas encardidas de uma história, a história de vida do Mocorongo.
Mocorongo tornou-se uma estrela, brilhante por natureza, iluminando o céu, junto à companheira que, assim como ele, foi fiel à sua missão.
Saudades de Mocorongo é lembrar de suas gargalhadas, é acordar pela madrugada imaginando que seu assobio ainda toca marchinhas e canções da terra. É abrir-se num largo sorriso ao lembrar que ainda estão vivas as lembranças daquele que ousou assobiar, gargalhar e encantar em todo canto, onde ele pôs a planta de seus pés. É ter certeza que o tempo faz esquecer, pode apagar, mas nunca destruir as obras que Mocorongo realizou enquanto esteve neste lugar.
Mocorongo, ‘ocê é um bobo! Bobo e feio!
É, Mocorongo, você é a estrela que ainda ousa brilhar, iluminar e encantar nossa vida.
O almoço ia no pequeno caldeirão, dentro do embornal, junto com a merenda. Abria a porta, olhava para um lado e outro, fechava-a novamente e, com passos firmes e decididos, enfrentava a cerração e aquele ventinho gelado. Era madrugada e no céu ainda havia estrelas. Ninguém era visto na rua, ainda dormiam.
Um assobio estridente cortou a madrugada e quebrou o silêncio. Marchas cívicas se misturavam às melodias que eram executadas pelas ruas silenciosas e desertas. Passos rápidos e sintonizados com o ritmo das marchas assobiadas.
O assobio matutino era a identidade daquele homem e, quando ouviam-no, sabiam que ele passava. O tempo passou e o assobio fora incorporado à rotina da cidade e mesmo quando ele não estava bem, aquele som era esperado. Todos os dias lá vinha ele, assobiando e andando a largos passos, como se tivesse uma pressa infinita.
Mas não era só o assobio peculiar àquele homem. Mocorongo era seu jargão e podia significar qualquer pessoa ou qualquer coisa, concordando com o que ele quisesse alcunhar. Tudo e todos podiam ser um mocorongo, mocoronguinho ou até mesmo um mocorongão. Difícil era saber o que ele queria dizer quando chamava alguém de mocorongo. E foi ele mesmo quem interpretou o apelido:
– Mocorongo, ‘ocê é um bobo! Bobo e feio!
Mocorongo não era ser bobo, nem ser feio, mas aquele homem preferia simplificar tudo, não buscar significados específicos e não se preocupar com o que poderia ou não ser um mocorongo. O feitiço do eufemismo virou contra o feiticeiro e mocorongo passou a ser o seu próprio apelido.
Mocorongo era espalhafatoso, andava pelas ruas falando alto e quando a conversa ficava mais amistosa, ele esfregava o rosto com as mãos e uma gargalhada homérica ressoava. Ao ouvi-la, já sabiam: o Mocorongo estava passando na rua.
Mocorongo não passava despercebido, quando era visto, havia sempre alguma coisa para falar, assunto nunca lhe faltava.
O tempo passou e levou a motivação e encanto do assobio e das gargalhadas do Mocorongo. Ele andava triste, cabisbaixo e já não estava tão alegre como antes. Perdera sua companheira e a solidão lhe interrompeu o repertório. Mocorongo estava em silêncio, quieto, enlutado. A companheira de algumas décadas parece ter levado consigo o assobio e as razões das gargalhadas de Mocorongo.
Aquela ausência arrancou daquele lugar o assobio, as gargalhadas e o próprio Mocorongo, que partiu para uma terra não tão distante e enxertou-se em outros troncos. Fixaria suas raízes em outro lugar, onde pôde, outra vez, assobiar e gargalhar como antes.
O repertório de Mocorongo parecia interminável e, naquele lugar, ele logo começou a marcar sua presença e gravar o som de suas gargalhadas nos ouvidos daquele povo, também alcunhado de mocorongo.
A alegria do assobio e a festa das gargalhadas do Mocorongo agora eram em outro lugar. Para trás ficou a terra que Mocorongo pisou por pouco mais que sete décadas.
O tempo outra vez foi cruel e chegou o dia que Mocorongo viu executado todo o seu repertório, soltou incontáveis gargalhadas e muita gente já havia sentido, com ele, a sua alegria. Mocorongo cumprira sua missão.
Mocorongo, nem é um bobo, nem um feio, apenas era alegre em todas as circunstâncias.
Mocorongo não tinha mais o que fazer e deu por concluída a sua missão. Decidiu apelidar outras gentes, gargalhar com outras platéias, alegrar os moradores de outras terras, brilhar em outros palcos.
Mocorongo não escolheria deixar este lugar, mas, como nunca se esquivou de um compromisso, aceitou o desafio e depois de uma carreira de vida de mais de setenta e um anos, foi assobiar com o vento, para que o mundo todo pudesse ouvir e sentir a força de seus pulmões, que no último minuto fê-lo calar-se para sempre. Seu corpo foi depositado no jazigo, marcado por estacas fincadas ao lado da companheira, no dia em que ela foi naquele chão enterrada.
Já não é mais possível em nenhuma terra ver o Mocorongo passar. Ouvir o eco de seu assobio e suas gargalhadas homéricas não é mais permitido. Corações ficaram tristes e já não podem alegrar-se com ele.
Nas madrugadas não se ouve mais o som daquele assobio nem aquelas gargalhadas. Ficaram as obras de suas mãos, que perpetuar-se-ão na memória de muitos e registradas nas páginas encardidas de uma história, a história de vida do Mocorongo.
Mocorongo tornou-se uma estrela, brilhante por natureza, iluminando o céu, junto à companheira que, assim como ele, foi fiel à sua missão.
Saudades de Mocorongo é lembrar de suas gargalhadas, é acordar pela madrugada imaginando que seu assobio ainda toca marchinhas e canções da terra. É abrir-se num largo sorriso ao lembrar que ainda estão vivas as lembranças daquele que ousou assobiar, gargalhar e encantar em todo canto, onde ele pôs a planta de seus pés. É ter certeza que o tempo faz esquecer, pode apagar, mas nunca destruir as obras que Mocorongo realizou enquanto esteve neste lugar.
Mocorongo, ‘ocê é um bobo! Bobo e feio!
É, Mocorongo, você é a estrela que ainda ousa brilhar, iluminar e encantar nossa vida.
ÁGUA
A água brota nas grotas que salpicam o pasto
Generosamente esculpido.
Aqui e ali uma pedra, grande ou pequena,
Enfiada na terra, circundada pela vegetação que serve ao gado.
O pasto, forrado pela grama, é também cortado pelo veio
Que escorre e faz nascer, no brejo,
Vegetais e arbustos que protegem a nascente.
O fio de água desliza pasto abaixo,
Abrindo caminho entre pedras e mato,
Contornando ilhotas, criando miniaturas de arquipélagos.
Encontrando com a água de outras minas
Que também brotam no pasto,
Aquele fiozinho ganha força
E já se pode ouvi-lo descer numa cascata de pedras e mato.
O barulho das águas é acalentador, pois
A natureza é mesmo perfeita em tudo o que faz,
E aqueles fios d’água continuam seu percurso e com outras águas,
De outras nascentes, vão formando um estreito ribeirão,
Que deságua pasto abaixo,
E com sua força arrasta pequenos arbustos
E cava no chão duro um sulco que lhe servirá por caminho.
Alguém provido de sabedoria,
Desvia o curso da água
Para que ela lhe sirva de bebida e fonte de energia.
O moinho, construído abaixo da casa,
Aguarda os jatos de água
Que farão mover a engenhosa máquina
Que tritura o milho,
Transformando-o em sub-produtos.
É a vida brotando do nada,
E encantando os olhos
Que vêem, da aridez do pasto, nascer a água.
Enquanto isso, a água continua a brotar,
A cortar o pasto, a se encontrar com outras águas,
A formar o ribeirão, a gerar energia,
A mover o moinho
E a matar a sede do homem.
EVOCAÇÃO DE CRIANÇA
Aquela casa sempre vazia
As portas fechadas
Janelas não abertas.
Pela porta ninguém entra,
Pelo portão ninguém sai.
O quintal deserto
Nem voz, nem ruído
Ninguém por perto
Mas aquela casa
Alguém habitava
Solidão... silêncio...
Nenhum barulho se ouvia.
Falta algo, não está completo
Talvez a alegria
O encanto da vida.
Mas alguém esperado um dia chegou.
Passou pelo portão
E logo entrou,
Invadindo a casa e
Mudando hábitos.
Ruído... barulho...
Agora se ouvia.
Janelas abertas por todo dia.
Não mais solidão,
Entrava e saía.
Espaço ocupado, tudo mudado
Tecido colorido
No varal pendurado.
Aquela mudança não era um mal,
De esperança e futuro um belo sinal.
Com voz infante, ouvia chorar
Mas a branda canção fazia ninar.
A vida reinando é grande mudança
O antes tão triste
É agora esperança.
A casa aberta ficou arejada,
É o fim da tristeza, exalou alegria,
Pois era esperada e muito aguardada
Aquela criança
Tanto desejada
FIBRA ÓTICA
Misteriosamente, és um enigma.
Não posso ver-te, mas sei que estás em algum lugar,
Não posso tocar-te, mas sinto o teu calor
Não nos aproximamos, mas posso sentir o teu cheiro
Não ouço dizer nada, mas você fala comigo
Não falei-te palavra alguma, mas sabes o que sinto
Pouco me expus, mas conheces os meus desejos
Não neguei, mas sabes o que não me faz feliz
Não pedi, mas me deste amor
Não tenho-te ao meu lado, mas não me sinto só
Não beijei-te os lábios, mas sinto o teu gosto
És real e vejo-te multiforme
Não estamos próximos, mas unidos pela fibra
Não nos sentimos, não nos vemos, não nos tocamos
Mas nos experimentamos, e assim,
Somos humanos,
Somos completos,
Somos plenos,
Somos felizes.
O RELÓGIO
Na parede o relógio
Parado.
Seus ponteiros andam
Um, rápido,
Outro, devagar,
O terceiro lentamente.
O relógio está parado,
Os ponteiros circulam,
E nós olhamos o movimento dos ponteiros
E corremos contra a crueldade do tempo
Medido pelo relógio.
É angustiante olhar o tempo passar!
À BEIRA DA RUA CHORA O MENINO
À beira da rua chora o menino
As lágrimas escorrem, riscando-lhe as faces sujas
Olha para um e para outro
Fita o horizonte e em sua busca nada encontra
Chora!
Chora o menino pelo que perdeu
Chora pelo que não teve
Chora por ver que uns possuem tudo
Chora por saber que nada recebeu
À beira da rua chora o menino
Chora pela mãe ausente
Chora pelo pai sem recursos
Chora a falta de um teto
Chora por não ter comida
O menino se olha e chora
Chora por não entender
Chora por nada ter
Chora por nada ter feito
Chora pela culpa que não teve
À beira da rua chora o menino
Chora por colher os frutos da árvore que não plantou
Chora ao ver o seu mundo ruir
Chora por saber que não tem pra onde fugir
Mas, o que quer o menino que chora à beira da rua?
Talvez já não saiba porque chora
Talvez já não saiba o que quer
Talvez não se ache no direito de exigir ter direito a alguma coisa
Apenas chora, e sem reclamar chora!
À beira da rua chora o menino
Chora sem saber que chora
Chora sem saber porque chora
Chora sem saber como chora
Chora, sem ser percebido, chora
Chora, apenas chora o menino à beira da rua
SABIÁ
Sabia que o Sabiá
Sabia que a Sabiá
Sabia sobiar?
O sabiá do Campo
Com seu belo e apreciado canto
Imita o canto das aves
E o assobio dos homens
E também sabe cantar
O sabiá Barranco
Canto flauteado, contínuo e mavioso
Cantando motivos simples
Duas vezes repetidos
O sabiá Coleira é o Turdus Albicollis
Também o Carachué-Coleira
Que canta estrofes suaves
Prolongadas e contínuas
São bem simples os motivos
Que compõem o seu cantar
O sabiá da Praia encontra-se no litoral
Onde aprendeu a cantar
Um canto doce e notável
E ao Mimus imitar
O Una tem o sem canto
Rico e Variado
Diversos motivos de duração não-igual
O Una não sabe só cantar
Mas, também sabe imitar
De todos os sabiás
O Laranjeira é especial
O belo canto tem voz flauteada, como a flauta doce
E seu cantar é repetido, sua melodia com notas constantes
Um canto variado e ininterrupto
Como ele, só o sabiá da Mata
Mas, sabia que os sabiás sabem cantar?
Cantar, imitar e encantar.
TRIBUTO À CHOUPANA
Paisagem edênica, um paraíso, um resgate,
Choupana, tranqüilidade que enleva a alma
Nas asas do sonho, no vôo da mente,
Do passado à presença visível e palpável, que
Encanta os olhos, engrandece o espírito
Resgata a razão e o motivo da vida.
COMA
Encontro-me
Quanto estou fora de mim
Quando estou distante e ausente
Sem rumo, sem direção.
Sinto-me nas trevas, perdido
E sozinho na solidão.
Por fora me vejo
Por dentro não me encontro
Preciso voltar e cumprir a missão.
ESVAIR
Eu queria ser, não fui.
Eu queria ter, não tive.
Eu desejei conhecer, não conheci.
Esvaí-me em planos e expectativas.
O MORRER
Não vejo,
Não sinto,
Não percebo a dimensão da minha transcendência,
Que me liberta e me enclausura,
E me conduz a uma eternidade plena
Que me faz sentir o tédio do ócio.
MINAS GERAIS
Em Minas nasci
Aqui me criei
Raízes profundas
Em Minas finquei
A nossa história
Nossa tradição
Contada em versos
Cantada em canção
No coração do mineiro
Há sempre um lugar
Pra acolher aquele
Que está pra chegar
No alto da serra
Firmada a cruz
Símbolo da fé
Da crença em Jesus
O verde das matas
O amarelo do ouro
Riqueza ambiente
O nosso tesouro
Por onde eu for
Aonde andar
A imagem de Minas
Sempre hei de levar
Andar e andar
Cansar, jamais
Apreciar esta terra
As Minas Gerais
Riqueza sem par
Um bem duradouro
És Minas Gerais
O nosso tesouro
UTOPIA
As sombras são vultos que a luz projeta
Que se movem pelo vento
Que se estendem e se encolhem
Inanimadas em si mesmas.
Assombração é ruído
O pisar na tábua frouxa do assoalho
O ranger da porta
O farfalhar das folhagens.
As sombras são sinais
De vida
De luz
De algo existente além da utopia.
Assombração é pasmo
É o desconhecido
É não ter certeza
É imaginar.
As sombras são
Assombração?
Assombração
Sombras são?
Assombração
São sombras
Sombras em movimento.
MOMENTO
É tarde,
Crepúsculo!
Meus olhos procuram alguma razão para explicar o que me queima o peito,
Meu coração busca uma resposta
O que está acontecendo comigo?
Onde está a tristeza que insistia ferir-me a alma?
Por onde anda a agonia que certamente dizimaria meu ser?
O que foi feito daquele sentimento ruim, aquele desejo de morte?
O que faria de mim?
Onde pensei enterrar meu ser?
De onde me surgiu o fio, quase invisível, ao qual me agarrei?
De onde brotou a ressurreição?
Qual a origem do meu renascimento?
Ver de novo a vida,
Verde, nova folha!
Sorrir sem razão,
Sussurrar por emoção,
Salivar de prazer,
Degustar o desejo.
Ah!, a vida abre-me novamente,
O horizonte ressurge na rotura do véu,
O invólucro se rompe, é possível viver.
A liberdade eleva-me
Flutuo, leve, elevado
Por quanto tempo não, sei
Será eterno? Não julgo.
Se terminar agora, valeu a pena.
Se sou feliz?
Não posso afirmar,
Apenas me realizo neste momento.
VELOZ
O gato pulou veloz,
Veloz alcançou o telhado,
Velocidade no solo,
Velocidade no salto.
Passa o tempo sem ter tempo
De ver o tempo passar, pois,
Veloz pulou o gato,
De um telhado a outro.
Oculto sobre o telhado,
Posso não vê-lo,
Ele passa veloz.
Imaginação seria
Vê-lo veloz passar
Cruzando como um raio,
Atrás do roedor.
Numa atitude atroz,
Alcançá-lo é sua sorte,
E também é a morte
De quem se distrai
Sem ver sua hora chegar,
E que num salto veloz,
Agarra a presa nas mãos,
Na pressa de devorá-la.
Veloz a vida passa,
E veloz idade que passa,
Ou é o tempo que passa veloz?
A velocidade leva a vida
Ou a vida passa veloz
Passa o tempo
A vida passa
Passa o homem e o gato.
O tempo passou
Ou quem passou foi a vida
E nem percebemos?
NINGUÉM
Ninguém é alguém que diz existir
Que não vem a mim
Que também não procuro
Ninguém me escuta
Ninguém fala comigo
Ninguém me convida
Ninguém vem comigo
Ninguém me enxerga
Ninguém se mostra a mim
Ninguém me sorri
Ninguém vê meu choro
Ninguém me aplaude
Ninguém me impulsiona
Ninguém me aconselha
Ninguém me orienta
Pra ninguém sou alguém
Pra mim, alguém é ninguém
Não existo pra ninguém
Ninguém existe pra mim
Senão, pra quem sou alguém.
O CANTO DA TERRA
Num canto da terra
O canto da terra
Canta a terra
E encanta a terra
Num canto da terra
O canto ecoa
No canto entoa
O tom do cantar
No canto da terra
O canto destoa
E já não ecoa
Não pode cantar
Em toda a terra
Ecoa o pranto
E daquele canto
Não ouve o cantar
De toda a terra
Um canto entoa
E o canto ecoa
Ressurgirá
Em toda a terra
Renasce o cantar
E o canto da terra
Vai ecoar
Num canto da terra
O canto da terra
Canta a terra
E volta a encantar
NA GROTA AO PÉ DA SERRA
A serra cerca o vale
O que me encanta o coração
Pois, naquela grota eu vivo
Oculto pela cerração
Vivo ao pé da serra
Com as plantas e pedras da grota
Abrigado no seio da terra
Sacio-me da água que brota
Que brota, escorre e molha o chão
Germina a semente e brotos virão
O verde renasce, colore o grotão
Logo prospera e nos dá o pão
No silêncio da grota fico a pensar
No homem que vive em outro lugar
Destrói, constrói, sempre a buscar
Parece perdido, não vai se encontrar
O que precisou na terra encontrou
Ambição aguçada, a terra explorou
Cavou, abriu, o que viu retirou
Depois de vazio, a abandonou
Viemos do pó, é só entender
Ligados ao pó desde o conceber
Ao pó voltaremos, vai nos receber
O momento será quando não mais viver
Vivo na serra, naquele grotão
E com a minha mãe terra está meu coração
Estou sempre feliz e com gratidão
Recebo dela a vida e o pão.
UM CONTO EM TODO CANTO
Quem canta seus males espanta e,
Quem conta um conto aumenta um ponto,
Me dê um ponto que lhe conto um conto, pois,
Quem conta um conto ou
Canta um canto,
Encanta em todo canto
Com o conto que se conta
E o canto que se canta
Que é o encanto deste canto
O canto do conto
Que conta o conto do ponto
Encanta com o ponto
Que conta o conto.
E o conto, um belo canto,
Que se canta em todo canto.
O conto que se conta
Ou o canto que se canta
Sempre encanta em todo canto
A quem canta ou conta um conto
E S P A Ç O
O espaço é o traço
É a linha
É o toque frágil que faz saltar a marca
É o tempo dos fatos
É o firmamento
É o ar que ninguém vê
O paço que não mais existe
É a ruptura
A distância dos pontos
É a trégua da fala
A pausa da escrita
É o tempo dos fatos
É o simbólico, o signo, a figura
Espaço é o espaço
Entre um e outro
VAZIO
Ruas vazias
Horas a fio
Ninguém vem,
Ninguém vai.
Debruçada à janela, observa
Olha quem vem,
Segue com o olhar quem vai,
Comenta ou pensa,
Cumprimenta e sorri.
Mas ninguém vem,
Ninguém vai.
As ruas vazias,
A praça deserta,
O sol a pino,
Dourado, ardente,
Ninguém passa.
Mas, alguém
Sentado no banco
Corta a palha,
Pica o fumo,
Enrola o cigarro e
Percorre a ponta da língua no pito,
Faz concha com a mão,
Do isqueiro o fogo,
Do fogo a fumaça,
Fumaça que esvai,
No espaço vazio,
Vazio como aquelas ruas da
Cidade vazia,
Da praça vazia,
Das casas vazias,
Vazio como o meu olhar,
Ao olhar e não ver você.
VIGÍLIA
Fecho os olhos, tento dormir, mas o sono parece distante.
Há quanto tempo estou deitado, não sei,
E também não posso contar o que pensei naquela ínfima fração de tempo.
Mudo de posição.
Busco outros pensamentos,
Ou simplesmente não quero pensar em nada...
Não tenho controle algum sobre minhas imaginações e
Qualquer som ou ruído,
Despertar-me do sono que nem sequer aproximou-se de mim.
Esta posição não está adequada, não me sinto bem.
Lembro-me de alguém que morreu há algum tempo e,
Em milésimos de segundo o pensamento vaga,
Por diversos temas, pessoas e fatos,
Até ver-me pensando no nada.
Um cachorro late bem longe...
Onde estará? O que poderá estar acontecendo
Para mantê-lo acordado àquela hora?
Ele late, outros parecem entender o latido como um convite e também começam a latir.
Em pouco tempo, uma porção de cachorros estão latindo.
Novamente, silêncio.
Meus ouvidos estão atentos ao mais leve ruído.
Parece que estou ouvindo cada barulho,
E por mais insignificante que seja, desperta-me e o sono não chega.
Alguém passa na rua. Tosse. Está frio, muito frio.
Passou... se foi.
Quem quer que seja, já passou.
Um galo canta.
Decepção. Outros não cantaram com ele.
O silêncio perdura por um tempo.
Uma música soa ao longe, bem distante,
Meio surda e rouca.
Algum rádio está ligado àquelas horas.
É, alguém também não dormia em algum lugar.
Ouvia música.
Passa o tempo,
A música quebra o silêncio.
Aquela voz insistia em interromper a solidão da noite.
Cortava o espaço, soando em meus ouvidos.
A voz repetia a letra. Cantava.
A cada refrão, parecia aproximar-se de mim.
É, cantava e cantava.
Levado pelo vento, vagava.
E por alguns momentos senti algo estranho.
O som não parecia vir de um rádio,
Mas de alguém que cantava...
Não havia um rádio sintonizado,
Mas a voz de um solitário que canta e caminha pelas ruas...
Caminha, caminha, caminha...
O cantar daquele homem se mescla com o latido dos cães e
Dos galos, que se despertaram em horário equivocado.
Ainda não raiava o dia.
Era apenas o início da madrugada.
Acompanhando o som, ouvido atento,
Parece uma serenata.
Alguém estava sendo homenageado.
A cantoria prosseguia.
Caminhava pelas ruas solitárias,
Até parar num certo lugar,
Repetir inúmeras vezes o refrão,
Que ecoava no silêncio da madrugada.
A voz vai se abrandando, se distancia.
Permaneço atento e tento identificar quem canta.
À medida que aquela voz encontra um rumo,
Vou me encontrando com o sono,
E dormir já é possível,
Depois de ninado pela voz desconhecida,
Que insistia em romper o silêncio para se afirmar
Numa homenagem e confissão de amor
A alguém que jamais saberei quem é.
Mas, se amam...
E tudo o que importa naquele momento,
Naquele início de madrugada fria,
É que se amam.
Fundem-se e se confundem num sentimento único.
Numa sensação ímpar.
Numa relação sem lógica ou explicação.
O sono me rouba a consciência
E as palavras já se perdem soltas,
Sem sentido, sem coerência,
Reflito, durmo, não me entendo,
Durmo, apenas durmo...
LÁGRIMA
A gota cai,
Não, desliza
Desce devagar, sem pressa
Deixa sua marca
Um vestígio
Escorre contornando obstáculos
Às vezes lentamente
Outras, depressa
Levada pela gravidade
Num longo percurso
Que lhe diminui a força, pois,
Uma parte ficou para trás
As forças são ínfimas,
A gota desce
Mas, não sabe seu destino
Ela se dissipa
Simplesmente...
INFINITIVAMENTE
Sonhar. Desejar. Buscar. Falar. Marcar. Encontrar. Ver. Decidir. Amar.
Casar. Relacionar. Conceber. Gerar. Nascer. Amamentar.
Comer. Crescer. Estudar. Aprender. Descobrir. Desenvolver.
Perceber. Olhar. Querer. Plugar. Conectar. Logar. Digitar.
Procurar. Encontrar. Falar. Marcar. Ver. Encontrar.
Relacionar. Decepcionar. Insistir. Errar. Negar.
Pensar. Meditar. Refletir. Conscientizar. Decidir.
Arrepender. Retornar. Pedir. Suplicar. Perdoar. Receber.
Aceitar. Agradecer. Continuar. Caminhar. Consertar.
Definir. Estagnar. Acomodar. Reagir.
Tranqüilizar. Pensar. Organizar. Definir. Estipular.
Decidir. Lutar. Viver. Vencer. Continuar. Repetir.
Perpetuar...
A água brota nas grotas que salpicam o pasto
Generosamente esculpido.
Aqui e ali uma pedra, grande ou pequena,
Enfiada na terra, circundada pela vegetação que serve ao gado.
O pasto, forrado pela grama, é também cortado pelo veio
Que escorre e faz nascer, no brejo,
Vegetais e arbustos que protegem a nascente.
O fio de água desliza pasto abaixo,
Abrindo caminho entre pedras e mato,
Contornando ilhotas, criando miniaturas de arquipélagos.
Encontrando com a água de outras minas
Que também brotam no pasto,
Aquele fiozinho ganha força
E já se pode ouvi-lo descer numa cascata de pedras e mato.
O barulho das águas é acalentador, pois
A natureza é mesmo perfeita em tudo o que faz,
E aqueles fios d’água continuam seu percurso e com outras águas,
De outras nascentes, vão formando um estreito ribeirão,
Que deságua pasto abaixo,
E com sua força arrasta pequenos arbustos
E cava no chão duro um sulco que lhe servirá por caminho.
Alguém provido de sabedoria,
Desvia o curso da água
Para que ela lhe sirva de bebida e fonte de energia.
O moinho, construído abaixo da casa,
Aguarda os jatos de água
Que farão mover a engenhosa máquina
Que tritura o milho,
Transformando-o em sub-produtos.
É a vida brotando do nada,
E encantando os olhos
Que vêem, da aridez do pasto, nascer a água.
Enquanto isso, a água continua a brotar,
A cortar o pasto, a se encontrar com outras águas,
A formar o ribeirão, a gerar energia,
A mover o moinho
E a matar a sede do homem.
EVOCAÇÃO DE CRIANÇA
Aquela casa sempre vazia
As portas fechadas
Janelas não abertas.
Pela porta ninguém entra,
Pelo portão ninguém sai.
O quintal deserto
Nem voz, nem ruído
Ninguém por perto
Mas aquela casa
Alguém habitava
Solidão... silêncio...
Nenhum barulho se ouvia.
Falta algo, não está completo
Talvez a alegria
O encanto da vida.
Mas alguém esperado um dia chegou.
Passou pelo portão
E logo entrou,
Invadindo a casa e
Mudando hábitos.
Ruído... barulho...
Agora se ouvia.
Janelas abertas por todo dia.
Não mais solidão,
Entrava e saía.
Espaço ocupado, tudo mudado
Tecido colorido
No varal pendurado.
Aquela mudança não era um mal,
De esperança e futuro um belo sinal.
Com voz infante, ouvia chorar
Mas a branda canção fazia ninar.
A vida reinando é grande mudança
O antes tão triste
É agora esperança.
A casa aberta ficou arejada,
É o fim da tristeza, exalou alegria,
Pois era esperada e muito aguardada
Aquela criança
Tanto desejada
FIBRA ÓTICA
Misteriosamente, és um enigma.
Não posso ver-te, mas sei que estás em algum lugar,
Não posso tocar-te, mas sinto o teu calor
Não nos aproximamos, mas posso sentir o teu cheiro
Não ouço dizer nada, mas você fala comigo
Não falei-te palavra alguma, mas sabes o que sinto
Pouco me expus, mas conheces os meus desejos
Não neguei, mas sabes o que não me faz feliz
Não pedi, mas me deste amor
Não tenho-te ao meu lado, mas não me sinto só
Não beijei-te os lábios, mas sinto o teu gosto
És real e vejo-te multiforme
Não estamos próximos, mas unidos pela fibra
Não nos sentimos, não nos vemos, não nos tocamos
Mas nos experimentamos, e assim,
Somos humanos,
Somos completos,
Somos plenos,
Somos felizes.
O RELÓGIO
Na parede o relógio
Parado.
Seus ponteiros andam
Um, rápido,
Outro, devagar,
O terceiro lentamente.
O relógio está parado,
Os ponteiros circulam,
E nós olhamos o movimento dos ponteiros
E corremos contra a crueldade do tempo
Medido pelo relógio.
É angustiante olhar o tempo passar!
À BEIRA DA RUA CHORA O MENINO
À beira da rua chora o menino
As lágrimas escorrem, riscando-lhe as faces sujas
Olha para um e para outro
Fita o horizonte e em sua busca nada encontra
Chora!
Chora o menino pelo que perdeu
Chora pelo que não teve
Chora por ver que uns possuem tudo
Chora por saber que nada recebeu
À beira da rua chora o menino
Chora pela mãe ausente
Chora pelo pai sem recursos
Chora a falta de um teto
Chora por não ter comida
O menino se olha e chora
Chora por não entender
Chora por nada ter
Chora por nada ter feito
Chora pela culpa que não teve
À beira da rua chora o menino
Chora por colher os frutos da árvore que não plantou
Chora ao ver o seu mundo ruir
Chora por saber que não tem pra onde fugir
Mas, o que quer o menino que chora à beira da rua?
Talvez já não saiba porque chora
Talvez já não saiba o que quer
Talvez não se ache no direito de exigir ter direito a alguma coisa
Apenas chora, e sem reclamar chora!
À beira da rua chora o menino
Chora sem saber que chora
Chora sem saber porque chora
Chora sem saber como chora
Chora, sem ser percebido, chora
Chora, apenas chora o menino à beira da rua
SABIÁ
Sabia que o Sabiá
Sabia que a Sabiá
Sabia sobiar?
O sabiá do Campo
Com seu belo e apreciado canto
Imita o canto das aves
E o assobio dos homens
E também sabe cantar
O sabiá Barranco
Canto flauteado, contínuo e mavioso
Cantando motivos simples
Duas vezes repetidos
O sabiá Coleira é o Turdus Albicollis
Também o Carachué-Coleira
Que canta estrofes suaves
Prolongadas e contínuas
São bem simples os motivos
Que compõem o seu cantar
O sabiá da Praia encontra-se no litoral
Onde aprendeu a cantar
Um canto doce e notável
E ao Mimus imitar
O Una tem o sem canto
Rico e Variado
Diversos motivos de duração não-igual
O Una não sabe só cantar
Mas, também sabe imitar
De todos os sabiás
O Laranjeira é especial
O belo canto tem voz flauteada, como a flauta doce
E seu cantar é repetido, sua melodia com notas constantes
Um canto variado e ininterrupto
Como ele, só o sabiá da Mata
Mas, sabia que os sabiás sabem cantar?
Cantar, imitar e encantar.
TRIBUTO À CHOUPANA
Paisagem edênica, um paraíso, um resgate,
Choupana, tranqüilidade que enleva a alma
Nas asas do sonho, no vôo da mente,
Do passado à presença visível e palpável, que
Encanta os olhos, engrandece o espírito
Resgata a razão e o motivo da vida.
COMA
Encontro-me
Quanto estou fora de mim
Quando estou distante e ausente
Sem rumo, sem direção.
Sinto-me nas trevas, perdido
E sozinho na solidão.
Por fora me vejo
Por dentro não me encontro
Preciso voltar e cumprir a missão.
ESVAIR
Eu queria ser, não fui.
Eu queria ter, não tive.
Eu desejei conhecer, não conheci.
Esvaí-me em planos e expectativas.
O MORRER
Não vejo,
Não sinto,
Não percebo a dimensão da minha transcendência,
Que me liberta e me enclausura,
E me conduz a uma eternidade plena
Que me faz sentir o tédio do ócio.
MINAS GERAIS
Em Minas nasci
Aqui me criei
Raízes profundas
Em Minas finquei
A nossa história
Nossa tradição
Contada em versos
Cantada em canção
No coração do mineiro
Há sempre um lugar
Pra acolher aquele
Que está pra chegar
No alto da serra
Firmada a cruz
Símbolo da fé
Da crença em Jesus
O verde das matas
O amarelo do ouro
Riqueza ambiente
O nosso tesouro
Por onde eu for
Aonde andar
A imagem de Minas
Sempre hei de levar
Andar e andar
Cansar, jamais
Apreciar esta terra
As Minas Gerais
Riqueza sem par
Um bem duradouro
És Minas Gerais
O nosso tesouro
UTOPIA
As sombras são vultos que a luz projeta
Que se movem pelo vento
Que se estendem e se encolhem
Inanimadas em si mesmas.
Assombração é ruído
O pisar na tábua frouxa do assoalho
O ranger da porta
O farfalhar das folhagens.
As sombras são sinais
De vida
De luz
De algo existente além da utopia.
Assombração é pasmo
É o desconhecido
É não ter certeza
É imaginar.
As sombras são
Assombração?
Assombração
Sombras são?
Assombração
São sombras
Sombras em movimento.
MOMENTO
É tarde,
Crepúsculo!
Meus olhos procuram alguma razão para explicar o que me queima o peito,
Meu coração busca uma resposta
O que está acontecendo comigo?
Onde está a tristeza que insistia ferir-me a alma?
Por onde anda a agonia que certamente dizimaria meu ser?
O que foi feito daquele sentimento ruim, aquele desejo de morte?
O que faria de mim?
Onde pensei enterrar meu ser?
De onde me surgiu o fio, quase invisível, ao qual me agarrei?
De onde brotou a ressurreição?
Qual a origem do meu renascimento?
Ver de novo a vida,
Verde, nova folha!
Sorrir sem razão,
Sussurrar por emoção,
Salivar de prazer,
Degustar o desejo.
Ah!, a vida abre-me novamente,
O horizonte ressurge na rotura do véu,
O invólucro se rompe, é possível viver.
A liberdade eleva-me
Flutuo, leve, elevado
Por quanto tempo não, sei
Será eterno? Não julgo.
Se terminar agora, valeu a pena.
Se sou feliz?
Não posso afirmar,
Apenas me realizo neste momento.
VELOZ
O gato pulou veloz,
Veloz alcançou o telhado,
Velocidade no solo,
Velocidade no salto.
Passa o tempo sem ter tempo
De ver o tempo passar, pois,
Veloz pulou o gato,
De um telhado a outro.
Oculto sobre o telhado,
Posso não vê-lo,
Ele passa veloz.
Imaginação seria
Vê-lo veloz passar
Cruzando como um raio,
Atrás do roedor.
Numa atitude atroz,
Alcançá-lo é sua sorte,
E também é a morte
De quem se distrai
Sem ver sua hora chegar,
E que num salto veloz,
Agarra a presa nas mãos,
Na pressa de devorá-la.
Veloz a vida passa,
E veloz idade que passa,
Ou é o tempo que passa veloz?
A velocidade leva a vida
Ou a vida passa veloz
Passa o tempo
A vida passa
Passa o homem e o gato.
O tempo passou
Ou quem passou foi a vida
E nem percebemos?
NINGUÉM
Ninguém é alguém que diz existir
Que não vem a mim
Que também não procuro
Ninguém me escuta
Ninguém fala comigo
Ninguém me convida
Ninguém vem comigo
Ninguém me enxerga
Ninguém se mostra a mim
Ninguém me sorri
Ninguém vê meu choro
Ninguém me aplaude
Ninguém me impulsiona
Ninguém me aconselha
Ninguém me orienta
Pra ninguém sou alguém
Pra mim, alguém é ninguém
Não existo pra ninguém
Ninguém existe pra mim
Senão, pra quem sou alguém.
O CANTO DA TERRA
Num canto da terra
O canto da terra
Canta a terra
E encanta a terra
Num canto da terra
O canto ecoa
No canto entoa
O tom do cantar
No canto da terra
O canto destoa
E já não ecoa
Não pode cantar
Em toda a terra
Ecoa o pranto
E daquele canto
Não ouve o cantar
De toda a terra
Um canto entoa
E o canto ecoa
Ressurgirá
Em toda a terra
Renasce o cantar
E o canto da terra
Vai ecoar
Num canto da terra
O canto da terra
Canta a terra
E volta a encantar
NA GROTA AO PÉ DA SERRA
A serra cerca o vale
O que me encanta o coração
Pois, naquela grota eu vivo
Oculto pela cerração
Vivo ao pé da serra
Com as plantas e pedras da grota
Abrigado no seio da terra
Sacio-me da água que brota
Que brota, escorre e molha o chão
Germina a semente e brotos virão
O verde renasce, colore o grotão
Logo prospera e nos dá o pão
No silêncio da grota fico a pensar
No homem que vive em outro lugar
Destrói, constrói, sempre a buscar
Parece perdido, não vai se encontrar
O que precisou na terra encontrou
Ambição aguçada, a terra explorou
Cavou, abriu, o que viu retirou
Depois de vazio, a abandonou
Viemos do pó, é só entender
Ligados ao pó desde o conceber
Ao pó voltaremos, vai nos receber
O momento será quando não mais viver
Vivo na serra, naquele grotão
E com a minha mãe terra está meu coração
Estou sempre feliz e com gratidão
Recebo dela a vida e o pão.
UM CONTO EM TODO CANTO
Quem canta seus males espanta e,
Quem conta um conto aumenta um ponto,
Me dê um ponto que lhe conto um conto, pois,
Quem conta um conto ou
Canta um canto,
Encanta em todo canto
Com o conto que se conta
E o canto que se canta
Que é o encanto deste canto
O canto do conto
Que conta o conto do ponto
Encanta com o ponto
Que conta o conto.
E o conto, um belo canto,
Que se canta em todo canto.
O conto que se conta
Ou o canto que se canta
Sempre encanta em todo canto
A quem canta ou conta um conto
E S P A Ç O
O espaço é o traço
É a linha
É o toque frágil que faz saltar a marca
É o tempo dos fatos
É o firmamento
É o ar que ninguém vê
O paço que não mais existe
É a ruptura
A distância dos pontos
É a trégua da fala
A pausa da escrita
É o tempo dos fatos
É o simbólico, o signo, a figura
Espaço é o espaço
Entre um e outro
VAZIO
Ruas vazias
Horas a fio
Ninguém vem,
Ninguém vai.
Debruçada à janela, observa
Olha quem vem,
Segue com o olhar quem vai,
Comenta ou pensa,
Cumprimenta e sorri.
Mas ninguém vem,
Ninguém vai.
As ruas vazias,
A praça deserta,
O sol a pino,
Dourado, ardente,
Ninguém passa.
Mas, alguém
Sentado no banco
Corta a palha,
Pica o fumo,
Enrola o cigarro e
Percorre a ponta da língua no pito,
Faz concha com a mão,
Do isqueiro o fogo,
Do fogo a fumaça,
Fumaça que esvai,
No espaço vazio,
Vazio como aquelas ruas da
Cidade vazia,
Da praça vazia,
Das casas vazias,
Vazio como o meu olhar,
Ao olhar e não ver você.
VIGÍLIA
Fecho os olhos, tento dormir, mas o sono parece distante.
Há quanto tempo estou deitado, não sei,
E também não posso contar o que pensei naquela ínfima fração de tempo.
Mudo de posição.
Busco outros pensamentos,
Ou simplesmente não quero pensar em nada...
Não tenho controle algum sobre minhas imaginações e
Qualquer som ou ruído,
Despertar-me do sono que nem sequer aproximou-se de mim.
Esta posição não está adequada, não me sinto bem.
Lembro-me de alguém que morreu há algum tempo e,
Em milésimos de segundo o pensamento vaga,
Por diversos temas, pessoas e fatos,
Até ver-me pensando no nada.
Um cachorro late bem longe...
Onde estará? O que poderá estar acontecendo
Para mantê-lo acordado àquela hora?
Ele late, outros parecem entender o latido como um convite e também começam a latir.
Em pouco tempo, uma porção de cachorros estão latindo.
Novamente, silêncio.
Meus ouvidos estão atentos ao mais leve ruído.
Parece que estou ouvindo cada barulho,
E por mais insignificante que seja, desperta-me e o sono não chega.
Alguém passa na rua. Tosse. Está frio, muito frio.
Passou... se foi.
Quem quer que seja, já passou.
Um galo canta.
Decepção. Outros não cantaram com ele.
O silêncio perdura por um tempo.
Uma música soa ao longe, bem distante,
Meio surda e rouca.
Algum rádio está ligado àquelas horas.
É, alguém também não dormia em algum lugar.
Ouvia música.
Passa o tempo,
A música quebra o silêncio.
Aquela voz insistia em interromper a solidão da noite.
Cortava o espaço, soando em meus ouvidos.
A voz repetia a letra. Cantava.
A cada refrão, parecia aproximar-se de mim.
É, cantava e cantava.
Levado pelo vento, vagava.
E por alguns momentos senti algo estranho.
O som não parecia vir de um rádio,
Mas de alguém que cantava...
Não havia um rádio sintonizado,
Mas a voz de um solitário que canta e caminha pelas ruas...
Caminha, caminha, caminha...
O cantar daquele homem se mescla com o latido dos cães e
Dos galos, que se despertaram em horário equivocado.
Ainda não raiava o dia.
Era apenas o início da madrugada.
Acompanhando o som, ouvido atento,
Parece uma serenata.
Alguém estava sendo homenageado.
A cantoria prosseguia.
Caminhava pelas ruas solitárias,
Até parar num certo lugar,
Repetir inúmeras vezes o refrão,
Que ecoava no silêncio da madrugada.
A voz vai se abrandando, se distancia.
Permaneço atento e tento identificar quem canta.
À medida que aquela voz encontra um rumo,
Vou me encontrando com o sono,
E dormir já é possível,
Depois de ninado pela voz desconhecida,
Que insistia em romper o silêncio para se afirmar
Numa homenagem e confissão de amor
A alguém que jamais saberei quem é.
Mas, se amam...
E tudo o que importa naquele momento,
Naquele início de madrugada fria,
É que se amam.
Fundem-se e se confundem num sentimento único.
Numa sensação ímpar.
Numa relação sem lógica ou explicação.
O sono me rouba a consciência
E as palavras já se perdem soltas,
Sem sentido, sem coerência,
Reflito, durmo, não me entendo,
Durmo, apenas durmo...
LÁGRIMA
A gota cai,
Não, desliza
Desce devagar, sem pressa
Deixa sua marca
Um vestígio
Escorre contornando obstáculos
Às vezes lentamente
Outras, depressa
Levada pela gravidade
Num longo percurso
Que lhe diminui a força, pois,
Uma parte ficou para trás
As forças são ínfimas,
A gota desce
Mas, não sabe seu destino
Ela se dissipa
Simplesmente...
INFINITIVAMENTE
Sonhar. Desejar. Buscar. Falar. Marcar. Encontrar. Ver. Decidir. Amar.
Casar. Relacionar. Conceber. Gerar. Nascer. Amamentar.
Comer. Crescer. Estudar. Aprender. Descobrir. Desenvolver.
Perceber. Olhar. Querer. Plugar. Conectar. Logar. Digitar.
Procurar. Encontrar. Falar. Marcar. Ver. Encontrar.
Relacionar. Decepcionar. Insistir. Errar. Negar.
Pensar. Meditar. Refletir. Conscientizar. Decidir.
Arrepender. Retornar. Pedir. Suplicar. Perdoar. Receber.
Aceitar. Agradecer. Continuar. Caminhar. Consertar.
Definir. Estagnar. Acomodar. Reagir.
Tranqüilizar. Pensar. Organizar. Definir. Estipular.
Decidir. Lutar. Viver. Vencer. Continuar. Repetir.
Perpetuar...
BRONZE
Ainda estava escuro e o gado já deixava o curral para ir ao pasto. Malhada não acompanhava o rebanho. Estava prenha, em dias de dar cria, e quase não podia andar.
A barriga inflada como um balão deixava as malhas ainda maiores e os peitos estavam inchados de leite. Malhada era uma boa vaca leiteira, mas era muito brava e ninguém se arriscava a chegar perto de seus chifres pontiagudos, uma arma letal. Ninguém facilitava. Sentenciado à morte estaria quem desse bobeira ou fizesse qualquer brincadeira com ela. Malhada estava sempre quieta, ruminando e babando, até que ficou prenha e a raiva tomou conta dela. O vaqueiro, a certa distância e com o ferrão, tentava afastá-la para que ele pudesse entrar no curral.
Na ordenha o leite saía farto; difícil era fazer Malhada entrar no curral para colocar-lhe a peia. Em dias de desprenhar, Malhada sempre ficava prostrada. Parecia gerar uma pedra, tamanho o seu desânimo. Às vezes olhava para as outras vacas pastando e até ameaçava acompanhá-las, mas o desânimo não permitia. “A anemia montou nela”, comentava o vaqueiro.
Assim, os dias foram passando e Malhada recebia o capim picado e o sal ali mesmo, no cocho do curral. Aquela não era a primeira cria de Malhada e ela sempre compensava os cuidados com bezerros fortes, grandes e robustos, que se tornavam bois cobiçados por ali.
Certa manhã, o vaqueiro encontrou Malhada deitada, estava prostrada, nem se mexia. Alguma coisa incomodava-a, forçando-a a se movimentar. A experiência do vaqueiro garantiu a suspeita: o filhote de Malhada nasceria naquele dia.
De fato, em pouco tempo nasceu um bezerro valente e forte. Ele saiu sem muito esforço, deslizando e caindo no chão, em meio ao capim seco e o estrume.
Desde o primeiro dia o vaqueiro estranhou o bezerro. A cor e as insistentes cabeçadas justificaram o nome: batizaram-no Bronze. Em pouco tempo ele ficou conhecido, devido à sua valentia, robustez e violência. Não entrava estranho no curral sem antes verificar onde estava o Bronze.
O bezerro cresceu rápido e também a sua fama. Não foram poucos os que tiveram que sair a galope, quando tentavam atravessar o pasto pela picada. Contavam que dois meeiros ficaram presos na copa de uma mangueira, escondidos do boi, que insistiu em tirar um cochilo ao pé da árvore e só permitiu que eles descessem quando, ao anoitecer, retornou ao curral.
Depois que Bronze nasceu, roubar fruta no pomar não era mais possível. Houve até quem se viu com a roupa rasgada pelas pontas dos chifres, ao passar por debaixo da cerca de arame farpado. Bronze defendia o seu território e não permitia qualquer invasão. Os ladrões se foram, mas deixaram as frutas esparramadas pelo chão e pedaços das roupas nas farpas do arame.
Não era fácil lidar com o Bronze. Ninguém se atrevia a amansá-lo e tampouco a se aproximar dele. Melhor mesmo deixar que ele crescesse ao acaso, sem muitos mimos, alegava os vaqueiros.
Não se sabia por que ele era bravo daquele jeito e muito menos de quem herdara toda aquela violência. Verdade que Malhada não era mansa, mas Bronze não puxara dela tamanha braveza, dizia o vaqueiro.
Ninguém ousava desafiar aquela fera que não reconhecia nem o próprio vaqueiro. Era melhor ceder aos caprichos do Bronze e deixá-lo pra lá, concluía o vaqueiro, desacoroçoado de enfrentar aquele boi.
Na época de bater o pasto, era preciso passar os animais para o pasto da outra fazenda. Mas, como atravessar o Bronze no arraial sem causar danos ou acidentes? Só havia uma alternativa: o vaqueiro ia à frente, conclamava a todos a trancar as portas e as janelas e proteger as crianças. Ninguém deveria ir à rua e nem de brincadeira ou por curiosidade poderia se aproximar de Bronze.
E lá ia ele, no meio do gado, bufando, atacando a cabeçadas os outros bois.
Bronze reinava. Crescia imponente. Era respeitado. Ninguém facilitava com ele. Pensava-se muito antes de enfrentá-lo.
Bronze era o orgulho da terra, um sucesso na Fazenda das Palmeiras. Bronze era poesia, comentado em todos os cantos, contado em causos, cantado em versos. Era mencionado nos repentes e nas poesias também. Nos versos de amor, era a comparação do macho. Até os meninos nascidos naquela época recebiam a alcunha de Bronzinho, como referência de macho.
Bravo como Bronze! Feroz! Forte! Dominador!
Bronze tornou-se referência. Muitas vacas foram levadas à fazenda para ficarem prenhas dele, pois, um filhote de Bronze valia muito, valorizava o gado, diziam os fazendeiros.
Bronze teve muitos filhos, mas nenhum se comparou a ele. Era motivo de orgulho ter um descendente seu na fazenda. Aquele boi, de pêlo bronzeado, era motivo de comentários, temor, respeito, referência e reverência.
Ninguém entrava no curral ou no pasto quando ele estava por perto, não ousavam desafiá-lo. Onde estava o Bronze, ninguém se aproximava, quando ele passava, todos se escondiam. Aquelas terras tiveram um guardião; aquele domínio possuiu uma imagem; a sua força, violência e robustez foram contadas e cantadas.
Os versos falavam dele. As cantigas também. O repente não o ignorou. Ser forte como um touro. Robusto como um boi. Corado como Bronze, declamavam.
Vó Nina contava que uma mulher, que não conhecia a braveza daquele boi, atravessava o pasto com uma criança de colo e três agarradas à barra da saia. De longe, Bronze percebeu a invasão e investiu contra os estranhos.
Correr para onde? As crianças não chegariam à outra margem e passariam ilesas a cerca de arame, sem antes serem alcançadas. Não restava outra saída, senão, morrerem ali mesmo, no meio do pasto, rasgados pelos chifres daquele animal. Sem saber o que fazer e em desespero, a mulher decide se entregar. Ajoelha no meio do pasto, cercada pelo capim, segura o pequeno de colo e se abraça aos demais. Protege-os inutilmente. O animal investe contra aquelas pobres e indefesas vidas. O ataque seria certeiro.
Cabeça baixa, chifres apontados para frente. Seria uma cabeçada só e não sobraria vivo. A mulher nem olha. Pede a proteção divina e entrega suas vidas a Deus, quem poderia deter aquela fera e salvá-los.
O tropel do boi era ouvido cada vez mais perto. Ela esperava pelo ataque. As crianças obedeciam-na e escondiam o rosto, agarradas à mãe.
Mas os passos cessam. Ninguém chegou. Bronze não atacou. Para onde ele foi? O que aconteceu? Pensando que o boi tivesse caído, a mulher abre os olhos, levanta o rosto lentamente e ousa olhar. Bronze está rodeando o pequeno e indefeso grupo, olha por um instante e simplesmente volta.
Ninguém explicou o ocorrido. Por que não atacou? O que aquela mulher fez para que Bronze desistisse? Ela se põe de pé e auxilia os filhos. Eles foram os únicos a atravessarem o pasto e não foram atacados por Bronze, contavam.
Explicar? Ninguém sabia. Ninguém ousava encontrar uma justificativa para as artimanhas e caprichos daquela criatura. Preferiam acreditar que um milagre aconteceu ali.
O reinado de Bronze durou o tempo suficiente para marcar a história da Fazenda das Palmeiras e ele ser lembrado sempre como um boi que não era somente bravo, robusto e agressivo.
Bronze foi, por muito tempo, assunto nas conversas de botequim, alpendres, terreiros, currais e tema das cantorias de viola.
Bronze fez diferença até que o tempo roubou-lhe as forças e o fôlego de vida lhe faltou.
Bronze não existe mais, mas a carcaça de sua cabeça foi hasteada no esteio do curral, para onde os olhares se convergem, para que ele nunca fosse esquecido. Ele sempre foi lembrado e reverenciado como Bronze e não apenas como um boi.
De fato, em pouco tempo nasceu um bezerro valente e forte. Ele saiu sem muito esforço, deslizando e caindo no chão, em meio ao capim seco e o estrume.
Desde o primeiro dia o vaqueiro estranhou o bezerro. A cor e as insistentes cabeçadas justificaram o nome: batizaram-no Bronze. Em pouco tempo ele ficou conhecido, devido à sua valentia, robustez e violência. Não entrava estranho no curral sem antes verificar onde estava o Bronze.
O bezerro cresceu rápido e também a sua fama. Não foram poucos os que tiveram que sair a galope, quando tentavam atravessar o pasto pela picada. Contavam que dois meeiros ficaram presos na copa de uma mangueira, escondidos do boi, que insistiu em tirar um cochilo ao pé da árvore e só permitiu que eles descessem quando, ao anoitecer, retornou ao curral.
Depois que Bronze nasceu, roubar fruta no pomar não era mais possível. Houve até quem se viu com a roupa rasgada pelas pontas dos chifres, ao passar por debaixo da cerca de arame farpado. Bronze defendia o seu território e não permitia qualquer invasão. Os ladrões se foram, mas deixaram as frutas esparramadas pelo chão e pedaços das roupas nas farpas do arame.
Não era fácil lidar com o Bronze. Ninguém se atrevia a amansá-lo e tampouco a se aproximar dele. Melhor mesmo deixar que ele crescesse ao acaso, sem muitos mimos, alegava os vaqueiros.
Não se sabia por que ele era bravo daquele jeito e muito menos de quem herdara toda aquela violência. Verdade que Malhada não era mansa, mas Bronze não puxara dela tamanha braveza, dizia o vaqueiro.
Ninguém ousava desafiar aquela fera que não reconhecia nem o próprio vaqueiro. Era melhor ceder aos caprichos do Bronze e deixá-lo pra lá, concluía o vaqueiro, desacoroçoado de enfrentar aquele boi.
Na época de bater o pasto, era preciso passar os animais para o pasto da outra fazenda. Mas, como atravessar o Bronze no arraial sem causar danos ou acidentes? Só havia uma alternativa: o vaqueiro ia à frente, conclamava a todos a trancar as portas e as janelas e proteger as crianças. Ninguém deveria ir à rua e nem de brincadeira ou por curiosidade poderia se aproximar de Bronze.
E lá ia ele, no meio do gado, bufando, atacando a cabeçadas os outros bois.
Bronze reinava. Crescia imponente. Era respeitado. Ninguém facilitava com ele. Pensava-se muito antes de enfrentá-lo.
Bronze era o orgulho da terra, um sucesso na Fazenda das Palmeiras. Bronze era poesia, comentado em todos os cantos, contado em causos, cantado em versos. Era mencionado nos repentes e nas poesias também. Nos versos de amor, era a comparação do macho. Até os meninos nascidos naquela época recebiam a alcunha de Bronzinho, como referência de macho.
Bravo como Bronze! Feroz! Forte! Dominador!
Bronze tornou-se referência. Muitas vacas foram levadas à fazenda para ficarem prenhas dele, pois, um filhote de Bronze valia muito, valorizava o gado, diziam os fazendeiros.
Bronze teve muitos filhos, mas nenhum se comparou a ele. Era motivo de orgulho ter um descendente seu na fazenda. Aquele boi, de pêlo bronzeado, era motivo de comentários, temor, respeito, referência e reverência.
Ninguém entrava no curral ou no pasto quando ele estava por perto, não ousavam desafiá-lo. Onde estava o Bronze, ninguém se aproximava, quando ele passava, todos se escondiam. Aquelas terras tiveram um guardião; aquele domínio possuiu uma imagem; a sua força, violência e robustez foram contadas e cantadas.
Os versos falavam dele. As cantigas também. O repente não o ignorou. Ser forte como um touro. Robusto como um boi. Corado como Bronze, declamavam.
Vó Nina contava que uma mulher, que não conhecia a braveza daquele boi, atravessava o pasto com uma criança de colo e três agarradas à barra da saia. De longe, Bronze percebeu a invasão e investiu contra os estranhos.
Correr para onde? As crianças não chegariam à outra margem e passariam ilesas a cerca de arame, sem antes serem alcançadas. Não restava outra saída, senão, morrerem ali mesmo, no meio do pasto, rasgados pelos chifres daquele animal. Sem saber o que fazer e em desespero, a mulher decide se entregar. Ajoelha no meio do pasto, cercada pelo capim, segura o pequeno de colo e se abraça aos demais. Protege-os inutilmente. O animal investe contra aquelas pobres e indefesas vidas. O ataque seria certeiro.
Cabeça baixa, chifres apontados para frente. Seria uma cabeçada só e não sobraria vivo. A mulher nem olha. Pede a proteção divina e entrega suas vidas a Deus, quem poderia deter aquela fera e salvá-los.
O tropel do boi era ouvido cada vez mais perto. Ela esperava pelo ataque. As crianças obedeciam-na e escondiam o rosto, agarradas à mãe.
Mas os passos cessam. Ninguém chegou. Bronze não atacou. Para onde ele foi? O que aconteceu? Pensando que o boi tivesse caído, a mulher abre os olhos, levanta o rosto lentamente e ousa olhar. Bronze está rodeando o pequeno e indefeso grupo, olha por um instante e simplesmente volta.
Ninguém explicou o ocorrido. Por que não atacou? O que aquela mulher fez para que Bronze desistisse? Ela se põe de pé e auxilia os filhos. Eles foram os únicos a atravessarem o pasto e não foram atacados por Bronze, contavam.
Explicar? Ninguém sabia. Ninguém ousava encontrar uma justificativa para as artimanhas e caprichos daquela criatura. Preferiam acreditar que um milagre aconteceu ali.
O reinado de Bronze durou o tempo suficiente para marcar a história da Fazenda das Palmeiras e ele ser lembrado sempre como um boi que não era somente bravo, robusto e agressivo.
Bronze foi, por muito tempo, assunto nas conversas de botequim, alpendres, terreiros, currais e tema das cantorias de viola.
Bronze fez diferença até que o tempo roubou-lhe as forças e o fôlego de vida lhe faltou.
Bronze não existe mais, mas a carcaça de sua cabeça foi hasteada no esteio do curral, para onde os olhares se convergem, para que ele nunca fosse esquecido. Ele sempre foi lembrado e reverenciado como Bronze e não apenas como um boi.